Economistas alertam que o patamar elevado limita capacidade de consumo das pessoas ao terem de direcionar recursos para pagar dívidas
O nível elevado de endividamento das famílias e do setor público tem potencial para frear o crescimento da economia brasileira. O comprometimento da renda com o pagamento de dívidas limita a capacidade de consumo.
As despesas de consumo das famílias e do governo têm peso relevante no Produto Interno Bruto (PIB), sob a ótica da demanda. Somadas, atingiram 82,5% do PIB em 2025.
Leia o infográfico abaixo:
O consumo das famílias apresentou uma desaceleração ao crescer 1,3% no ano passado. Em 2024, a alta havia sido de 5,1%. Já a despesa de consumo do governo avançou 2,1% em 2025, levemente acima do ano anterior –com alta de 2,0%.
Felippe Serigati, economista e pesquisador do FGV Agro (Centro de Estudos do Agronegócio), afirma haver uma relação direta entre endividamento e redução de consumo. “Cada real adicional que entrar no domicílio tem que ser alocado para pagar dívida, e não para ampliar o consumo ou realizar um investimento”, declarou ao Poder360.
Dados da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) mostram que a taxa de endividamento das famílias brasileiras atingiu 80,4% em março. É o maior nível da série histórica, iniciada em 2015.
O percentual corresponde à parcela de famílias que relataram ter dívidas a vencer com cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, crédito consignado, empréstimo pessoal, cheque pré-datado e prestações de carro e casa.
“Essa situação não é sustentável. O endividamento elevado é problemático, mas o principal indicador é a inadimplência. O problema não é ter dívida, mas não conseguir pagá-la”, disse Serigati.
A Dívida Bruta do Governo Geral subiu para 80,1% do PIB em março de 2026. O indicador cresceu 8,7 pontos percentuais no governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Ecio Costa, economista e professor da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), chama atenção para o aumento de gastos do governo e o custo elevado com o pagamento de juros da dívida.
“A problemática é que, quanto mais o governo gasta e se endivida, maior fica o custo de manutenção e rolagem dessa dívida. Com juros elevados, há um deficit nominal causado por esse aumento de gastos. Isso também gera inflação”, declarou.
EXPANSÃO DO PIB LIMITADA
Na 2ª feira (27.abr), o mercado financeiro reduziu levemente a projeção de crescimento do PIB em 2026, de 1,86% para 1,85%, segundo o Boletim Focus, divulgado pelo Banco Central. Em 2025, a atividade econômica brasileira cresceu 2,3%.
Costa afirma que a alta foi aquém do potencial. “Foi uma economia que não decolou. Cresceu, mas muito pouco diante do aumento do endividamento”, disse.
O economista relaciona a limitação do crescimento do PIB ao endividamento das famílias e do setor público. “Com alto endividamento de ambos os lados, as famílias ficam pressionadas e não conseguem consumir mais, porque parte relevante da renda é destinada ao pagamento de dívidas. Isso desacelera a economia pela falta de expansão do consumo.”
Só com o pagamento de juros, há um comprometimento superior a 10% da renda mensal das famílias brasileiras. Ao considerar amortização e encargos, o percentual chega a 29,7%, segundo dados do Banco Central.
NOVO DESENROLA
Na 2ª feira (4.mai), o governo Lula lançará o Novo Desenrola. A expectativa é que o programa de renegociação de dívidas ofereça perdão de até 90% dos débitos. É a nova aposta do Planalto em ano eleitoral, com juro baixo (de até 1,99%).
Segundo Ecio Costa, o programa tende a levar as famílias novamente ao consumo e ao consequente endividamento: “É um cenário perfeito para uma tempestade que vai acontecer mais adiante. Você não tem educação financeira nenhuma, tem famílias que estão também muito enroscadas com as bets, que viraram uma verdadeira doença aqui no país”.
Em pronunciamento na cadeia de rádio e TV na 5ª feira (30.abr), o presidente Lula disse que os brasileiros que aderirem ao Desenrola 2.0 terão acesso à plataforma de apostas bloqueado por 1 ano.

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