As hepatites virais ainda representam um importante desafio para a saúde pública. Embora possam atingir pessoas de todas as idades, essas doenças costumam evoluir de forma silenciosa. Em muitos casos, o diagnóstico só acontece quando o fígado já apresenta lesões importantes. Por isso, especialistas reforçam que a vacinação, a realização dos testes e o diagnóstico precoce são fundamentais para prevenir complicações.
Instituída pela Lei nº 13.802/2019, a campanha Julho Amarelo busca ampliar o acesso à informação, incentivar a prevenção, fortalecer a vacinação e estimular o diagnóstico precoce das hepatites virais. A cor da campanha faz referência à icterícia, um dos sintomas mais conhecidos da doença, caracterizado pelo amarelamento da pele e dos olhos.
Neste ano, o Ministério da Saúde também reforça a importância da testagem como estratégia para ampliar o diagnóstico e contribuir para a meta da Organização Mundial da Saúde (OMS) de eliminar as hepatites virais como problema de saúde pública até 2030.
Hepatites virais exigem atenção
As hepatites virais são infecções que provocam inflamação no fígado e podem ser causadas por cinco vírus: A, B, C, D e E. Apesar de afetarem o mesmo órgão, elas apresentam diferenças importantes quanto à transmissão, evolução clínica e tratamento.
Para o hepatologista Dr. André Lyra, compreender essas diferenças é essencial para reduzir o número de casos e evitar complicações.
“As hepatites virais são infecções que acometem o fígado e podem ser causadas por cinco vírus principais: A, B, C, D e E. Embora todas provoquem inflamação hepática, cada uma apresenta formas diferentes de transmissão, evolução clínica e tratamento. Conhecer essas diferenças é fundamental para prevenir a infecção, diagnosticar precocemente e evitar complicações.“
A professora do curso de Biomedicina da Estácio, Ana Karolina Sales, destaca que as hepatites não apresentam o mesmo comportamento clínico.
“Algumas hepatites apresentam evolução aguda e podem ser curadas espontaneamente. Já outras podem se tornar crônicas e provocar complicações graves, como cirrose e câncer de fígado“, explica a biomédica.
Cada tipo de hepatite possui características próprias
Hepatite A
Segundo Dr. André Lyra, a hepatite A é transmitida pela via fecal-oral, principalmente por meio da ingestão de água ou alimentos contaminados.
“Na grande maioria dos casos, provoca uma infecção aguda, autolimitada, e não evolui para a forma crônica.”
Hepatite B
A hepatite B é transmitida principalmente por relações sexuais desprotegidas, contato com sangue contaminado e da mãe para o bebê durante a gestação ou o parto.
“Ela pode se manifestar de forma aguda ou crônica. Quando não diagnosticada e tratada adequadamente, a infecção crônica pode evoluir para cirrose e câncer de fígado.”
Hepatite C
A hepatite C é transmitida, sobretudo, pelo contato com sangue contaminado e representa uma das maiores preocupações dos especialistas devido à elevada taxa de cronificação.
“É uma doença que preocupa porque apresenta elevada taxa de cronificação, podendo evoluir silenciosamente durante anos até causar cirrose ou câncer hepático. A boa notícia é que hoje dispomos de tratamentos altamente eficazes, capazes de curar praticamente todos os pacientes.”
Hepatite D
A hepatite D ocorre principalmente na região Amazônica e depende da presença do vírus da hepatite B para se multiplicar. Por isso, somente pessoas infectadas pelo vírus B podem desenvolver a doença.
Hepatite E
Pouco frequente no Brasil, a hepatite E também é transmitida pela via fecal-oral. Na maioria dos casos, apresenta evolução benigna e autolimitada. Entretanto, pode ser grave em gestantes e em pessoas imunossuprimidas.
Doença pode permanecer silenciosa durante anos
Um dos maiores desafios das hepatites virais é a ausência de sintomas, especialmente nas hepatites B e C. Essa característica faz com que muitos pacientes descubram a doença apenas quando já apresentam comprometimento do fígado.
Dr. André Lyra explica que os sintomas costumam surgir principalmente nas formas agudas.
“Nas formas agudas, os sintomas mais comuns incluem mal-estar, fadiga intensa, perda do apetite, náuseas, vômitos, dor abdominal, especialmente na região do fígado, além de icterícia, que é o amarelamento da pele e dos olhos. Também podem ocorrer urina escura e fezes claras.”
O especialista, Dr. Lyra, faz outro alerta.
“As hepatites B e C frequentemente permanecem assintomáticas por muitos anos. Muitas pessoas descobrem a doença apenas quando já apresentam comprometimento importante do fígado.”
Ana Karolina Sales reforça que a ausência de sintomas não significa ausência da doença.
“Como muitas pessoas permanecem sem sintomas durante anos, a realização periódica dos exames é fundamental, especialmente para quem possui fatores de risco.“
O professor do curso de Enfermagem da Estácio, Reynaldo Júnior, ressalta que quanto mais cedo a doença é identificada, maiores são as chances de sucesso no tratamento.
Todas as hepatites são contagiosas, mas a transmissão é diferente
Embora todas as hepatites virais sejam contagiosas, cada uma possui formas específicas de transmissão. Por isso, conhecer essas diferenças é essencial para reduzir o risco de infecção e combater informações incorretas.
O professor do curso de Enfermagem da Estácio, Reynaldo Júnior, faz um alerta importante.
“As hepatites virais não são transmitidas por abraço, aperto de mão, compartilhamento de toalhas ou pelo convívio social”.
Segundo Dr. André Lyra, as hepatites A e E são transmitidas pela ingestão de água e alimentos contaminados. Já a hepatite B é transmitida por via sexual, pelo sangue e da mãe para o filho durante a gestação ou o parto.
A hepatite C ocorre principalmente pelo contato com sangue contaminado. Já a hepatite D também é transmitida pelo sangue, porém somente infecta pessoas que já possuem hepatite B.
Vacinação continua sendo a principal forma de prevenção
A prevenção varia conforme o tipo de hepatite. Entretanto, algumas medidas são comuns e ajudam a reduzir significativamente o risco de infecção.
Entre elas estão:
• Lavar as mãos com frequência.
• Consumir água tratada.
• Higienizar corretamente frutas, verduras e legumes.
• Utilizar preservativo em todas as relações sexuais.
• Não compartilhar agulhas, seringas, lâminas, alicates ou outros objetos perfurocortantes.
• Certificar-se de que materiais utilizados em tatuagens, piercings, consultórios odontológicos e procedimentos estéticos estejam devidamente esterilizados.
Além dessas medidas, a vacinação permanece como uma das estratégias mais eficazes para prevenir a doença.
No Brasil, as vacinas contra as hepatites A e B são oferecidas gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e contribuem significativamente para reduzir a transmissão e as complicações associadas às infecções.
Dr. André Lyra reforça a importância da imunização.
“As vacinas contra as hepatites A e B são extremamente eficazes e oferecem proteção duradoura. Infelizmente, ainda não existe vacina contra a hepatite C, o que torna a prevenção e o diagnóstico precoce ainda mais importantes.”
Tratamento evoluiu e aumentou as chances de cura
Cada tipo de hepatite possui uma abordagem terapêutica diferente.
Segundo Reynaldo Júnior:
“As hepatites A e E geralmente exigem apenas repouso, hidratação e alimentação equilibrada. Já as hepatites B e C possuem medicamentos específicos, sendo que a hepatite C apresenta índice de cura superior a 95% quando diagnosticada e tratada adequadamente”.
Dr. André Lyra destaca que os avanços da medicina mudaram o cenário das hepatites virais nos últimos anos.
“A hepatite B pode ser controlada com antivirais que reduzem a atividade do vírus e diminuem significativamente o risco de cirrose e câncer de fígado, embora ainda não exista cura definitiva. Já a hepatite C representa um dos maiores avanços da medicina, pois atualmente pode ser curada com medicamentos antivirais de ação direta, com taxas de sucesso próximas de 100%.”
Quando procurar atendimento?
Os especialistas orientam que qualquer pessoa com fatores de risco ou que nunca tenha realizado o teste procure uma unidade de saúde.
Também é recomendado buscar avaliação médica caso surjam sintomas como pele e olhos amarelados, urina escura, fezes claras, dor abdominal persistente, fadiga intensa, náuseas ou perda do apetite.
Além disso, pessoas que receberam transfusão de sangue antes da implantação dos testes obrigatórios, compartilharam objetos perfurocortantes ou tiveram contato com sangue contaminado devem conversar com um profissional de saúde sobre a necessidade de realizar exames.
Informação, prevenção e diagnóstico salvam vidas
Apesar dos avanços da medicina, milhares de brasileiros ainda convivem com hepatites virais sem saber. Como consequência, muitos recebem o diagnóstico apenas quando já desenvolveram complicações graves.
Para Dr. André Lyra, ampliar o acesso à informação continua sendo uma das principais estratégias para mudar esse cenário.
“As hepatites virais continuam sendo um importante problema de saúde pública, mas hoje dispomos de vacinas, testes rápidos e tratamentos altamente eficazes. O maior desafio ainda é identificar os pacientes que desconhecem estar infectados. A informação, a prevenção e o diagnóstico precoce são as melhores ferramentas para que possamos alcançar a meta da Organização Mundial da Saúde de eliminar as hepatites virais como ameaça à saúde pública até 2030.”
Neste Julho Amarelo, a principal mensagem dos especialistas é clara: manter a vacinação em dia, realizar os testes quando indicados e buscar atendimento diante de fatores de risco ou sintomas são atitudes que podem proteger o fígado, evitar complicações e salvar vidas.

COMMENTS