Documento do Ministério de Minas e Energia propõe industrialização para inserir país nas cadeias globais de transição energética
O MME (Ministério de Minas e Energia) apresentou nesta 6ª feira (19.jun.2026) um estudo inédito para subsidiar a elaboração da Estratégia Nacional de Terras-Raras. O documento deve orientar decisões do governo federal sobre o aproveitamento econômico e a neoindustrialização associados a esses minerais críticos. Eis a íntegra do estudo (PDF – 10,5 MB).
O trabalho foi conduzido pelo ministério em parceria com o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e elaborado pelo Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais). O relatório traz um diagnóstico da cadeia produtiva e sugere diretrizes para que o Brasil deixe de atuar apenas como exportador de matéria-prima.
Para o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, o cenário geopolítico atual exige visão estratégica e capacidade de transformar a disponibilidade de recursos em desenvolvimento.
“O Brasil reúne todas as condições para ocupar posição de protagonismo na nova economia global. Temos recursos naturais, energia limpa, instituições sólidas e capacidade de diálogo com diferentes parceiros”, afirmou.
Segundo o ministro, o compromisso é converter essas vantagens em inovação e empregos para preservar a soberania nacional e apoiar parceiros alinhados aos interesses do país.
POTENCIAL E GARGALOS
As terras-raras compreendem um grupo de 17 elementos químicos indispensáveis para tecnologias digitais e para a indústria de defesa. O foco econômico atual recai sobre 4 deles: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio. Eles compõem a base dos ímãs permanentes de alto desempenho, peças essenciais para motores de veículos elétricos e geradores de turbinas eólicas.
O documento indica que o Brasil detém a 2ª maior reserva do mundo, com 21 milhões de toneladas. O país concentra 23,1% dos recursos globais e fica atrás apenas da China. Apesar da abundância geológica, a indústria nacional enfrenta limitações de capacidade produtiva.
A cadeia de produção do setor é dividida em 3 etapas: mineração (upstream), separação e refino (midstream) e manufatura de componentes (downstream). O Brasil é competitivo na mineração, impulsionado por depósitos de argilas iônicas em Estados como Goiás e Minas Gerais.
Porém, o país tem capacidade quase nula na fase de processamento químico, etapa tecnologicamente complexa dominada por empresas chinesas.
A dependência externa no elo intermediário é apontada como a principal fragilidade nacional. O Cebri afirma que a vantagem geológica, por si só, não garante posicionamento estratégico nas cadeias globais de suprimento.
EIXOS DA ESTRATÉGIA
Para reverter essa defasagem, o estudo propõe uma transição seletiva e coordenada, dividida em 3 fases.
No curto prazo, a prioridade é organizar a mineração competitiva, aprofundar o conhecimento geológico e estruturar instrumentos financeiros para reduzir riscos aos investidores.
No médio prazo, o objetivo é ampliar a capacidade nacional de separação e refino, com a criação de polos regionais integrados a setores consumidores, como mobilidade elétrica e energia renovável.
No longo prazo, a meta é consolidar uma indústria integrada, capaz de realizar desde a extração mineral até a fabricação de componentes avançados e magnetos, além da criação de programas de reciclagem.
O relatório também alerta para a necessidade de maior previsibilidade regulatória. O licenciamento de projetos de terras-raras é frequentemente impactado pela presença de radioatividade natural (minerais classificados pela sigla NORM).
A sobreposição de competências entre órgãos ambientais, minerais e nucleares eleva o custo de capital e atrasa investimentos. A harmonização das regras entre a União e os Estados é apontada como condição estrutural para o avanço da cadeia produtiva.
A adoção de incentivos tributários e a ampliação da oferta de crédito também são citadas como medidas necessárias para viabilizar refinarias. Atualmente, os projetos em estágio mais avançado no Brasil somam R$ 13,2 bilhões em investimentos anunciados.
Caso o país amplie essas iniciativas, há potencial para adicionar 38.700 toneladas de óxidos de terras-raras ao mercado mundial, volume equivalente a 10% da produção global estimada para 2025.

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