Ao ampliar tarifas e prolongar a guerra, trump desestabiliza a economia mundial

Em 1996, Ivana Trump, primeira mulher de Donald Trump, fez uma participação de apenas vinte segundos no filme O Clube das Desquitadas. Ao se despedir das anfitriãs de uma festa, pronunciou uma frase que resumia com humor o ruidoso divórcio do casal: “Não fique com raiva, fique com tudo”. Ivana sabia do que falava. Na separação, ocorrida em 1990, obteve uma indenização de 14 milhões de dólares, várias propriedades e uma pensão anual de 650 000 dólares para os três filhos. Três décadas depois, Trump conduz outro rompimento turbulento — desta vez, entre os Estados Unidos e o restante do mundo —, com efeitos que abalam a economia mundial em diversas frentes. Na comercial, impôs novas barreiras a mais de sessenta países, entre eles o Brasil. Na geopolítica, prolongou a guerra com o Irã, que culminou no fechamento do Estreito de Ormuz e em um novo choque nos preços do petróleo. Juntas, as duas ofensivas espalham incertezas e prejuízos muito além das fronteiras americanas “Os Estados Unidos decidiram se divorciar do mundo”, diz José Pio Borges, presidente do Centro Brasileiro de Relações Internacionais. Ao contrário de Ivana, porém, os parceiros dessa separação não receberão propriedades ou pensões — apenas uma sucessão de problemas.

No Brasil, o primeiro desafio é administrar os efeitos contraditórios da alta do petróleo. De um lado, a condição de grande produtor favorece o país, ao elevar a arrecadação de royalties e dos impostos pagos pela Petrobras e pelas demais companhias do setor. De outro, encarece os derivados da commodity e amplia as pressões inflacionárias. Desde o início do ano, a gasolina acumula alta de 6%, enquanto o óleo diesel disparou 16%, movimento que torna ainda mais difícil a tarefa do Banco Central de conter os preços. Em evento recente em São Paulo, o presidente da instituição, Gabriel Galípolo, reconheceu que o petróleo caro “é um fator que nos faz manter os juros em nível restritivo”.

Ciente de que a alta dos combustíveis corrói sua popularidade, o presidente Lula prorrogou o subsídio de 44 centavos por litro de gasolina por mais trinta dias. Uma estimativa do Ministério da Fazenda concluiu que a medida custará 1,2 bilhão de reais aos cofres públicos. O gasto adicional, ressalve-se, agravará o desequilíbrio fiscal e ajudará a ampliar a distância entre os preços domésticos e as cotações internacionais. Embora seja um grande produtor de petróleo, o Brasil não dispõe de capacidade de refino suficiente para atender ao consumo interno, o que o obriga a importar o combustível. Segundo a Abicom, associação que representa as importadoras, os preços no país estão 45% abaixo das cotações internacionais no caso da gasolina e 58% no do diesel. “Soluções artificiais, como o subsídio, só criam problemas”, diz Pedro Rodrigues, sócio da consultoria CBIE. Para ele, uma resposta mais eficaz passa pela redução da carga tributária sobre os combustíveis, pela ampliação da capacidade de refino e pelo combate à sonegação.

O governo Lula pode transformar a alta do petróleo provocada pela guerra com o Irã em um impulso para fortalecer a indústria nacional — se tiver disposição para isso. Extrair algum benefício do novo surto protecionista da Casa Branca, porém, é um desafio muito mais complexo. Na penúltima semana de julho, o governo americano impôs uma sobretaxa de 12,5% às importações do Brasil e de outros 59 países, sob a alegação de que eles não fazem o suficiente para combater o trabalho escravo. A tarifa se soma aos 25% cobrados exclusivamente sobre os produtos brasileiros, medida amparada em uma combinação desconexa de argumentos econômicos e políticos, dos supostos prejuízos provocados pelo Pix à prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro. A profusão de pretextos torna a negociação com Washington ainda mais árdua, mas o diálogo é o único caminho para limitar os danos às exportações. “Não se trata apenas de uma questão comercial”, diz Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior. “Trump quer negociar o acesso a minerais críticos, a regulação e a taxação das redes sociais e outros temas complexos que nem sequer dependem do Palácio do Planalto.”

Enquanto o impasse permanece, as empresas brasileiras sofrem as consequências. A pernambucana Ibacem, uma das maiores exportadoras de frutas do país, vive os dois lados dessa história. As mangas, que chegaram a ser taxadas em 50% no ano passado, foram incluídas na lista de isenções e, por isso, a empresa se prepara para despachar 1,8 milhão de caixas do produto para o mercado americano. As uvas, contudo, não foram beneficiadas pela isenção e pagam 37,5% de imposto. Com isso, a Ibacem deixará de embarcar 800 toneladas da fruta. A opção será vendê-las no Brasil, o que deve derrubar os preços e comprometer as margens. Outro efeito do protecionismo de Trump é a redução dos investimentos. A companhia engavetou os planos de elevar a produção em 25%. “Com isso, deixaremos de gerar 400 empregos diretos”, afirma Nelson Costa, presidente da Ibacem.

Infográfico Impacto Global com dados do Fundo Monetário Internacional. Crescimento do PIB em 2025: Mundo 3,5%, Desenvolvidos 1,9%, Emergentes 4,5%. Projeção 2026: Mundo 3%, Desenvolvidos 1,7%, Emergentes 3,8%. Crescimento do Comércio Internacional em 2025: Mundo 5%, Desenvolvidos 4,2%, Emergentes 6,4%. Projeção 2026: Mundo 3,5%, Desenvolvidos 3,4%, Emergentes 3,6%. Inflação em 2025: Mundo 4,1%, Desenvolvidos 2,5%, Emergentes 5,2%. Projeção 2026: Mundo 4,7%, Desenvolvidos 3%, Emergentes 5,8%

A Forbal, fabricante gaúcha de peças e equipamentos agrícolas, também rebaixou as expectativas de negócios com os Estados Unidos. Em abril de 2025, quando Trump anunciou o primeiro tarifaço, a empresa havia acabado de abrir um escritório em Tampa, na Flórida, com o intuito de tornar o país seu principal mercado no exterior, contribuindo com 10% da receita total. Passado pouco mais de um ano, porém, os americanos respondem por apenas 2% do faturamento e a internacionalização foca agora em vizinhos como a Argentina. Em meio a tantos anúncios e revogações de tarifas, as alíquotas estabelecidas neste mês apenas tornam o quadro mais confuso. “Nem os nossos clientes, nem os especialistas que contratamos nos Estados Unidos sabem quanto temos de pagar”, afirma Giuliano Santos, presidente da Forbal. “Isso aumenta a insegurança dos clientes e é péssimo para os negócios.”

As dificuldades enfrentadas pelas empresas brasileiras são apenas a face local de uma transformação muito mais ampla e que exige atenção permanente. Os muros erguidos por Trump estão reorganizando fluxos de comércio, alianças econômicas e cadeias produtivas, além de restringir o acesso ao maior mercado consumidor do planeta e usar as tarifas como instrumento de coerção política. Nem mesmo parceiros históricos dos Estados Unidos, como União Europeia, Japão e Canadá, escaparam das maldades de Trump. O tarifaço recente, vale lembrar, substitui o modelo anunciado em 2025, cuja legalidade passou a ser contestada na Justiça. Washington sustenta que as medidas protegem a indústria americana de práticas desleais, mas elas reforçam um traço marcante da nova era: a adoção de decisões unilaterais que alteram o equilíbrio internacional e multiplicam os riscos para empresas e governos.

A imprevisibilidade que marca a administração Trump também se projeta sobre a geopolítica americana. Iniciada há cinco meses, a guerra com o Irã permanece sem perspectiva de solução e voltou a se intensificar, com novos ataques de ambos os lados. Os reflexos aparecem imediatamente nos mercados de energia. Em julho, o barril do petróleo acumulou alta de 20%, superando os 90 dólares. Basta surgir algum sinal de retomada das negociações para que as cotações recuem. Quando as ameaças se renovam, voltam a subir. Essa gangorra mantém o setor sob forte volatilidade, dividido entre a esperança de uma saída diplomática e o temor de interrupções no fornecimento. A ausência de uma estratégia clara amplia o temor de que novos focos de tensão surjam. Na quarta-feira 29, a escalada ganhou mais um capítulo, quando Estados Unidos e Arábia Saudita atacaram bases de milícias iraquianas apoiadas por Teerã. Com os novos conflitos, cresceram os temores de que as principais rotas de escoamento de petróleo do Oriente Médio sejam comprometidas. “A incerteza sobre os próximos passos de Trump tem efeito paralisante sobre a economia mundial”, afirma Robert Kahn, diretor da consultoria Eurasia Group.

A ofensiva protecionista de Trump é hoje a principal fonte de instabilidade da economia global. Mais do que corrigir desequilíbrios comerciais, o objetivo do presidente americano parece ser conter o avanço da China. Sob o argumento de combater o trabalho forçado em cadeias produtivas vinculadas ao país asiático, o governo de Washington passou a punir empresas e nações integradas à rede de comércio de Pequim. As alíquotas tarifárias atingem, assim, países que estreitaram seus laços econômicos com a potência chinesa, entre eles o Brasil. Para especialistas, a nova investida tenta remediar o fracasso da política adotada em 2025, quando os Estados Unidos elevaram a até 145% as tarifas sobre produtos chineses, mas recuaram pouco depois. Nada disso foi suficiente para conter o ímpeto exportador da China. O governo de Xi Jinping driblou as barreiras ao redirecionar os embarques e conquistar novos mercados. Contrariando os planos de Trump, a corrente comercial chinesa cresceu 6% no ano passado e alcançou o recorde de 6,5 trilhões de dólares. “A tentativa de conter a China esbarra no tamanho e na integração da economia do país ao comércio mundial”, afirma Eswar Prasad, professor de economia e política comercial na Universidade Cornell, nos Estados Unidos.

Infográfico Tiro no Pé sobre o impacto econômico do protecionismo de Trump e guerra contra o Irã. Sobretaxas custaram 1000 dólares por família americana em 2025, e tarifas de julho custarão mais 700 dólares em 2026. 254 mil empregos deixarão de ser criados até 2035. Retaliações podem custar 141 mil empregos. Preço da gasolina subiu 38%. Inflação projetada de 3,6% acima dos 2,9% de 2025. Fontes: Tax Foundation, AAA Gas Prices e Federal Reserve

Apresentada por Trump como o caminho para reerguer a economia americana, a guerra comercial produziu efeito contrário. Desde o início do segundo mandato do presidente , o setor manufatureiro do país perdeu 77 000 postos de trabalho. No campo, os resultados são igualmente negativos. Segundo a American Farm Bureau Federation, principal entidade do agronegócio do país, os produtores rurais poderão acumular perdas de 63 bilhões de dólares até 2027 devido às retaliações adotadas pelas nações atingidas pelas tarifas. Atualmente, o cultivo de soja, algodão e trigo já opera no prejuízo. Parte da explicação está do outro lado do planeta. Em resposta a Trump, a China passou a privilegiar fornecedores considerados mais amigáveis, sobretudo Brasil e Argentina. Diante do risco crescente de perder a maioria na Câmara nas eleições de meio de mandato, em novembro, o presidente sinalizou a criação de um pacote emergencial de 12 bilhões de dólares para compensar parte dos danos. “No ano passado, cerca de 15 000 propriedades rurais encerraram suas atividades e o número de falências já cresceu 70% neste ano”, diz William Galston, especialista em governança do think tank americano Brookings Institution.

Os efeitos do ambiente hostil criado por Trump, porém, ultrapassam as fronteiras americanas. Em julho, o Fundo Monetário Internacional reduziu sua projeção para o crescimento mundial, agora de 3%, e apontou a deterioração das relações entre os países como uma das principais causas da desaceleração. Bancos e consultorias internacionais chegaram a conclusões semelhantes. O índice de confiança da Business Roundtable, associação que reúne os dirigentes das maiores companhias dos Estados Unidos, recuou ao menor nível desde 2020, refletindo a piora das expectativas para investimentos, contratações e vendas. Analistas do banco Goldman Sachs afirmam que a instabilidade em torno das tarifas levou empresas a adiar projetos de expansão e decisões de longo prazo, sobretudo no mercado americano. O J.P. Morgan, por sua vez, calcula em 35% o risco de uma recessão nos Estados Unidos e no restante do globo nos próximos doze meses. “Estamos diante de um mundo diferente, cujos contornos não estão claros”, disse Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, em discurso recente em Frankfurt, na Alemanha. A questão, portanto, já não é saber quem vencerá a próxima disputa comercial, mas qual ordem econômica emergirá desse embate — e que lugar caberá ao Brasil nela.

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