A paixão pelo futebol faz parte da identidade de milhões de brasileiros. Em dias de jogos decisivos da Seleção Brasileira, é comum que o coração acelere, as mãos fiquem geladas e a ansiedade aumente a cada lance. No entanto, o que para muitos representa apenas emoção pode se transformar em um risco real para a saúde cardiovascular, principalmente entre pessoas que já convivem com doenças do coração.
Hoje (29), o Brasil disputou uma partida decisiva pelas eliminatórias da Copa do Mundo FIFA 2026. Além da expectativa pelo resultado dentro de campo, especialistas chamam a atenção para os efeitos que situações de forte tensão emocional podem provocar no organismo. Momentos como prorrogações, disputas por pênaltis e gols nos minutos finais são capazes de desencadear respostas fisiológicas importantes, aumentando temporariamente a sobrecarga sobre o sistema cardiovascular.
Segundo a cardiologista Dra. Julianny Freitas, da Casa de Saúde São José, o organismo não diferencia um grande susto de uma situação de perigo real. Por isso, durante momentos de intensa emoção, o cérebro ativa mecanismos de defesa que provocam alterações imediatas no funcionamento do corpo.
“O cérebro ativa o sistema nervoso simpático, promovendo uma descarga intensa de adrenalina e noradrenalina. Esses hormônios aumentam a frequência cardíaca, elevam a pressão arterial, aumentam a força de contração do coração e elevam o consumo de oxigênio pelo músculo cardíaco. Além disso, tornam o sangue mais propenso à coagulação”, explica a especialista.
Embora essa resposta seja natural e faça parte dos mecanismos de adaptação do organismo, ela pode representar um fator de risco para pessoas que possuem doenças cardiovasculares ou fatores predisponentes ainda desconhecidos.
Estresse emocional pode funcionar como gatilho para eventos cardíacos
Durante situações de tensão intensa, o coração trabalha mais rapidamente e necessita de maior quantidade de oxigênio. Ao mesmo tempo, ocorre um aumento da pressão arterial e uma maior tendência à formação de coágulos sanguíneos.
Na maioria dos torcedores, essas alterações desaparecem poucos minutos após o fim da partida. Entretanto, em pessoas que apresentam doença coronariana, hipertensão arterial, insuficiência cardíaca, histórico de infarto ou arritmias, esse esforço adicional pode desencadear complicações importantes.
“Na maior parte das pessoas, isso provoca apenas sintomas transitórios, como palpitações, suor frio, mãos geladas e sensação de frio na barriga. Mas, em indivíduos predispostos, essa resposta pode funcionar como gatilho para infarto, arritmias e até morte súbita”, alerta a Dra. Julianny Freitas.
Segundo a médica, controlar o estresse do dia a dia também faz parte da prevenção cardiovascular, inclusive em momentos de lazer, como assistir a uma partida de futebol.
Problemas cardíacos silenciosos também merecem atenção
Nem sempre quem sofre um evento cardiovascular durante um momento de forte emoção já sabe que possui uma doença no coração.
Existem diversas condições que podem permanecer silenciosas durante anos, sem provocar sintomas evidentes. Entre elas estão alterações elétricas cardíacas, doenças genéticas, cardiopatias estruturais e até mesmo a doença coronariana silenciosa.
Por isso, pessoas com fatores de risco como hipertensão, diabetes, colesterol elevado, obesidade, tabagismo ou histórico familiar de doenças cardiovasculares devem manter acompanhamento médico regular, mesmo quando se sentem saudáveis.
A realização periódica de consultas e exames permite identificar alterações precocemente e reduzir significativamente o risco de complicações futuras.
Síndrome do coração partido pode surgir após emoções muito intensas
Outro quadro que pode ser desencadeado por situações de grande impacto emocional é a cardiomiopatia induzida pelo estresse, conhecida como síndrome de Takotsubo ou síndrome do coração partido.
Essa condição provoca um enfraquecimento temporário do músculo cardíaco e costuma apresentar sintomas muito semelhantes aos de um infarto, incluindo dor intensa no peito, falta de ar e alterações no eletrocardiograma.
Apesar do nome curioso, trata-se de uma condição que exige atendimento médico imediato.
“Ela pode ser desencadeada por emoções extremamente intensas e causar sintomas semelhantes aos de um infarto. A boa notícia é que esses eventos são raros. A maioria dos torcedores experimentará apenas as emoções naturais do esporte, sem consequências clínicas relevantes”, destaca a cardiologista.
Sintomas nunca devem ser atribuídos apenas à emoção
Especialistas reforçam que nem toda dor no peito durante um jogo deve ser interpretada como ansiedade.
Alguns sinais indicam a necessidade de procurar atendimento médico imediatamente:
- Dor ou sensação de pressão no peito por vários minutos;
- Falta de ar intensa;
- Desmaio ou perda de consciência;
- Tontura importante acompanhada de palpitações;
- Batimentos cardíacos muito rápidos, irregulares ou descompassados;
- Sudorese intensa associada a mal-estar;
- Dor irradiando para braço esquerdo, mandíbula, costas ou pescoço.
Quanto mais rápido o atendimento é iniciado, maiores são as chances de reduzir sequelas e aumentar a sobrevida em casos de infarto ou outras emergências cardiovasculares.
Hábitos durante os jogos também influenciam a saúde do coração
Além da tensão provocada pela partida, muitos brasileiros costumam reunir amigos e familiares para assistir aos jogos acompanhados de churrasco, petiscos, bebidas alcoólicas e, em alguns casos, cigarros ou cigarros eletrônicos.
Segundo a Dra. Julianny Freitas, esses hábitos podem aumentar ainda mais o risco cardiovascular, principalmente quando combinados com estresse emocional.
O consumo excessivo de álcool favorece alterações na pressão arterial e pode desencadear arritmias. Já a mistura entre bebidas alcoólicas e energéticos eleva ainda mais a frequência cardíaca e sobrecarrega o sistema cardiovascular.
O excesso de alimentos ricos em gordura e sódio também pode contribuir para o aumento da pressão arterial, enquanto o tabagismo reduz a oxigenação dos tecidos e favorece a formação de placas nas artérias.
Como torcer sem colocar a saúde em risco
Mesmo diante da emoção típica dos jogos decisivos, alguns cuidados ajudam a reduzir os riscos e permitem aproveitar a partida com mais segurança.
Entre as principais recomendações estão:
- Manter o uso correto das medicações prescritas;
- Controlar a pressão arterial e outras doenças já diagnosticadas;
- Evitar exageros no consumo de bebidas alcoólicas;
- Nunca misturar álcool com energéticos;
- Não fumar, incluindo cigarros eletrônicos;
- Manter boa hidratação durante toda a partida;
- Dormir adequadamente antes dos jogos;
- Fazer refeições equilibradas, evitando excessos;
- Não ignorar sintomas como dor no peito, falta de ar, desmaios ou palpitações;
- Realizar acompanhamento periódico com o cardiologista.
Emoção faz parte do futebol, mas a saúde deve vir em primeiro lugar
O futebol desperta sentimentos intensos e cria momentos inesquecíveis para os torcedores. No entanto, reconhecer os próprios limites e compreender os sinais que o corpo apresenta é essencial para evitar complicações.
Para quem já possui fatores de risco cardiovasculares, manter hábitos saudáveis e seguir corretamente o tratamento médico continua sendo a melhor estratégia para torcer com tranquilidade.
“Sentir o coração acelerar durante um jogo decisivo é normal. Sentir dor no peito, falta de ar ou desmaiar nunca deve ser considerado apenas emoção. Nessas situações, a avaliação médica é fundamental”, conclui a Dra. Julianny Freitas.

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