‘Vidas Passadas’ e o desejo feminino – 11/03/2024 – Vera Iaconelli

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‘Vidas Passadas’ e o desejo feminino – 11/03/2024 – Vera Iaconelli

O amor estaria escrito nas estrelas e seria só uma questão de tempo para que as almas gêmeas se encontrassem. Pode ser nesta encarnação, na próxima, ou talvez tenha sido em uma vida anterior, alguns dirão. Não sabemos nada sobre a veracidade dessas crenças, pois só temos nossa vã filosofia para confrontá-las.

De qualquer forma, elas fazem supor que o universo conspira para que encontremos o amado, o que traz algum alento. Primeiro porque podemos nos desresponsabilizar pelos fracassos amorosos —”não era para ser”—, segundo porque fica implícito que em algum lugar existe alguém que anseia por nós mesmo sem nos conhecer.

Nossa dificuldade em encarar a vida humana ordinária ajuda a explicar por que criamos narrativas nas quais somos regidos por forças superiores que revelam que dariam algum sentido à nossa existência. A psicanálise não deixa de atribuir aos desígnios do inconsciente o motor das nossas escolhas amorosas. A diferença é que na teoria psicanalítica o objeto amado não é suposto como escolhido pelo universo para nos completar, mas fruto de nossas aspirações mais infantis.

Condenados à consciência da própria existência e, portanto, da própria finitude, buscamos consolo onde der. O amor é a principal forma de negociação com o tempo que resta, essa implacável contagem regressiva que começa no momento em que nascemos, mas cujo número inicial desconhecemos.

Numa safra surpreendentemente rica de produções cinematográficas, vale destacar “Vidas Passadas” (2023), de Celine Song, que concorreu ao Oscar de melhor filme. Os personagens são tão honestos consigo mesmos e com os outros, inclusive admitindo o que não sabem sobre si, que a narrativa soa quase como uma fábula. Não há grandiloquência nem maniqueísmo e sequer os temas candentes chamados interseccionais estão em primeiro plano. Song, com seu elenco enxuto e primoroso, não ignora as questões da migração, do gênero, do racismo, da classe social —eles estão presentes em sua obra—, mas não deixa que elas tomem a centralidade da questão do desejo do sujeito.

O sujeito para a psicanálise não é o que conhecemos por indivíduo —indiviso—, pois o sujeito psicanalítico é, por definição, dividido, e seu “autoconhecimento” é sempre uma utopia. Só conhecemos nosso desejo a posteriori, quando a sucessão de nossos atos o revela retrospectivamente a nós. Tampouco a realização se dá sem perdas e lutos pelas opções que deixamos para trás.

Nora, personagem central do filme, está às voltas com o peso de suas escolhas no passado, no presente e no futuro. Diferentemente da personagem homônima de Ibsen em “Casa de Bonecas”, Nora não luta contra forças exteriores a ela, como um casamento de fachada, filhos ou dependência financeira. A diretora usa a fala do marido —com fina ironia— para eliminar qualquer dúvida de que se trataria de um enredo convencional.

Trata-se de saber com que Nora sonha, ou seja, quais as pistas que seu inconsciente produz para que ela possa seguir escolhendo a partir de seu desejo, não de uma vontade alienada às expectativas do outro. E isso não é detalhe, uma vez que o desejo de uma mulher é a questão central do feminismo, pois são elas que são mortas —uma a cada seis horas no Brasil— quando não consentem ao desejo dos homens.

Mas os homens ao redor de Nora estão em outra dimensão relacional, revelando por comparação a realidade misógina que impera para além da obra de Song. Daí a beleza que há no marido confidenciar que estuda coreano para entender com o que Nora sonha, pois ela fala dormindo em sua língua natal.

Quanto a nós, fora dessa bela obra, sonhamos em permanecer vivas o suficiente para enfrentar, como Nora, os dilemas humanos ordinários.

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