Perder alguém que amamos é uma das experiências mais difíceis da existência humana. No entanto, falar sobre a morte ainda é um desafio para muitas famílias.
O Dia Nacional do Luto, celebrado em 19 de junho, busca ampliar essa conversa. A data incentiva o acolhimento da dor, o respeito ao tempo de cada pessoa e a compreensão de que o luto faz parte da vida.
Além disso, especialistas alertam que o sofrimento provocado pela perda pode impactar significativamente a saúde mental.
Em 2022, a Organização Mundial da Saúde (OMS) incluiu o Transtorno do Luto Prolongado na Classificação Internacional de Doenças (CID-11). A condição pode ocorrer quando o sofrimento persiste de forma intensa e prolongada, comprometendo a rotina, os relacionamentos e a qualidade de vida.
Caso de velório em vida reacende debate sobre finitude
Nos últimos dias, um episódio chamou a atenção de todo o país. O caso do advogado que decidiu realizar o próprio velório em vida provocou espanto, emoção e inúmeras reflexões. Para alguns, a iniciativa foi difícil de compreender. Para outros, serviu como um lembrete poderoso de que a vida acontece agora, entre encontros, afetos, despedidas, reconciliações e palavras que ainda podem ser ditas. O episódio trouxe novamente à tona um tema que costuma ser evitado: como lidamos com a morte e com a consciência de que a vida é finita?
Por que ainda temos dificuldade de falar sobre a morte?
A cultura ocidental costuma associar a morte à dor, ao fracasso e à perda. Por isso, muitas famílias evitam o assunto. Frequentemente, acreditam que conversar sobre finitude pode aumentar o sofrimento ou retirar a esperança. No entanto, segundo especialistas, o silêncio nem sempre protege. Pelo contrário. Muitas vezes, ele impede conversas importantes, dificulta despedidas e gera decisões tomadas às pressas em momentos de crise.
Para a médica pneumologista e paliativista Dra. Yanne Amorim, líder da Linha de Cuidados Paliativos da Clínica Florence, em Salvador, e diretora médica do Hospital Mont Serrat, falar sobre a morte não significa desistir da vida.
“Falar sobre finitude não diminui a vida. Pode, inclusive, ampliar a consciência sobre o que realmente importa”, enfatiza Dra. Yanne.
O luto é uma experiência única
Não existe uma forma correta de viver o luto. Cada pessoa reage de acordo com sua história, seus vínculos afetivos, suas crenças e suas experiências. Além da morte de um ente querido, o luto também pode surgir diante de outras perdas significativas, como:
Diagnóstico de uma doença grave;
Perda da autonomia;
Mudanças importantes na rotina;
Fim de relacionamentos;
Mudanças familiares ou profissionais.
Por isso, comparar processos de luto costuma ser prejudicial. Cada trajetória é singular e merece acolhimento.
O que pode ajudar durante o processo de luto?
Embora não exista uma fórmula para enfrentar a perda, algumas atitudes podem favorecer a adaptação emocional:
- Procure apoio emocional
- Compartilhar sentimentos com familiares, amigos ou profissionais de saúde mental pode reduzir o isolamento.
- Respeite o próprio tempo
- O luto não segue um calendário.
- Por isso, é importante evitar cobranças sobre quando “deveria passar”.
- Permita-se sentir
- Tristeza, saudade, raiva e culpa podem fazer parte do processo.
- Reconhecer essas emoções costuma ser mais saudável do que reprimi-las.
- Mantenha vínculos afetivos
- A presença de pessoas significativas pode oferecer acolhimento e segurança.
Quando o luto exige atenção especializada?
O sofrimento é esperado após uma perda. Entretanto, quando os sintomas permanecem intensos por um longo período e comprometem a capacidade de trabalhar, estudar ou manter relações sociais, a busca por ajuda profissional torna-se fundamental.
Entre os sinais de alerta estão:
Isolamento social persistente;
Incapacidade de retomar atividades cotidianas;
Sofrimento intenso por muitos meses;
Sentimento constante de vazio;
Dificuldade extrema de aceitar a perda.
Nesses casos, avaliação psicológica ou psiquiátrica pode ser necessária. Falar sobre a morte também é falar sobre a vida. O Dia Nacional do Luto não existe apenas para lembrar quem partiu. A data também convida a refletir sobre a forma como vivemos.
Em uma sociedade que evita falar sobre finitude, reconhecer que a vida tem limites pode ajudar a valorizar o presente, fortalecer vínculos e dar mais significado às escolhas cotidianas. Como resume a Dra. Yanne Amorim:
“Falar sobre finitude não diminui a vida. Pode, inclusive, ampliar a consciência sobre o que realmente importa.”
Porque, muitas vezes, é justamente a consciência de que a vida é finita que nos ajuda a viver com mais presença, significado e verdade.
Entrevista especial
Esta reportagem foi produzida a partir de entrevista exclusiva concedida ao Portal ComSaúde Bahia por Dra. Yanne Amorim, médica pneumologista e paliativista, especialista em Pneumologia pela Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) e em Cuidados Paliativos pelo Instituto Paliar.
A especialista é líder da Linha de Cuidados Paliativos da Clínica Florence, unidade Salvador, e diretora médica do Hospital Mont Serrat.
Confira AQUI a entrevista completa: “Não cuidamos apenas do tempo que resta. Cuidamos da vida que ainda existe nesse tempo.”

COMMENTS